quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Enquanto o mundo gira (ou não)

(Uma pequena homenagem para aqueles que continuam fazendo o mundo girar, apesar de tudo)


Acorda antes do sol. Ainda é escuro, mas o café já esfumaça na caneca rachada. Sobre a mesa, provas, papéis e um bilhete torto de um aluno: “Você é o melor professor do mundo.” Ele sorri — não pelo erro na grafia, mas porque ali mora uma verdade invisível.

Na mochila, além do peso dos livros (físico e intelectual), leva lápis, folhas, fita adesiva e quatro canetas para o quadro branco — todas compradas do próprio bolso. O professor é o raro profissional que investe na esperança dos outros. O mundo corporativo daria um prêmio para descobrir esse segredo, mas ainda não inventaram MBA em empatia. E ele segue, com o salário apertado e o coração largo, para mais um dia de aula.

A chegada ao portão da escola é um misto de gritos e abraços — um momento de felicidade genuína. Logo depois, a primeira parada na sala dos professores é um mergulho na realidade crua. As notificações do grupo de pais começam a pipocar: um quer saber se é verdade que a Terra não gira, outro desconfia que Dom Casmurro é “doutrinação” para acabar com a família e ainda pergunta onde mora a tal Capitú, para passar longe do endereço. Ele respira fundo. Não há licenciatura que ensine a paciência necessária para certos debates. E começa, assim, a maratona diária que mistura contratos demais, disciplinas demais, turmas demais — e uma fé teimosa que insiste em continuar.

Na primeira aula, tenta explicar a fotossíntese enquanto três alunos disputam para ver quem tem o celular mais novo. Até que uma voz se levanta, tímida: — Professor, se as plantas respiram, a gente devia plantar mais pra salvar o planeta, né?
Ele sorri. Ainda há perguntas que nascem limpas. Ainda há curiosidade.

No intervalo, vai para a sala dos “profes”, como dizem os alunos. Alí, nesse território neutro o café é fraco, o riso é forte e alguns vazios são mesmo profundos. Um colega professor conta que foi chamado pela direção porque “levantou a voz” após ser xingado por um aluno. Outro confessa que pensa em largar tudo. Depois de um silêncio com identificação incerta — entre adesão ou autocrítica — surgem algumas piadas que salvam o que o salário não cobre.

À tarde, a reunião com os pais. Há os que chegam com olhos marejados, agradecidos. Mas há outros que brandem o celular com vídeos de internet como prova de verdade.
— Professor, meu filho disse que o senhor mandou ler Capitães de Areia. O fulano do YouTube falou que isso é coisa de comunista.

Ele respira. Sabe que a última vez que o tal fulano leu um livro foi provavelmente antes da invenção da prensa. Pensa em responder com ironia, mas vê o aluno ao lado do pai e lembra que seu trabalho é educar, e que isso nem sempre passa por vencer discussões.

De noite, a volta pra casa. Cansado, mas inquieto. Abre o notebook para preparar a aula seguinte. Quer que os alunos se interessem, que percebam o mundo com mais nitidez. Sabe que boa parte do que faz ninguém vê — as horas gastas, as correções minuciosas, as ideias testadas e abandonadas. Mas faz mesmo assim.

Ele sabe que o Dia dos Professores é só mais um dia, mesmo trazendo outro sentimento. O país não para, o salário não muda, o respeito não se multiplica. Ainda assim, ele segue. Há algo de teimosamente bonito em ensinar quando o resto parece desistir. Mais alimenta a indignação do que joga para a resignação.

O professor desliga o computador, junta os papéis e apaga a luz. A caneca ainda cheira a café frio. Antes de dormir, pensa nos alunos — nos que perguntam, nos que zombam, nos que apenas olham pela janela. Pensa se cada um, à sua forma, não está buscando uma fresta, uma saída.

Às dez da noite, o mundo lá fora ainda discute se a Terra é plana, se as vacinas funcionam ou se injetam chips espiões. Sentado à mesa da cozinha, ele prepara o amanhã. Tira o bilhete amassado da mochila e guarda numa pasta com outros tantos, de tantos anos, que o lembram do essencial: ainda há quem queira aprender. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Manifesto pela criação da Defensoria Pública dos Super-Ricos (DPSR)

 

Nós, que nunca esperamos na fila do INSS, nós que temos mais iates do que amigos de verdade, que mandamos o motorista resolver qualquer pepino em cartório, chegamos ao limite. Nesse momento em que a o uísque transborda pela borda copo entendemos que chegou o momento de nos manifestarmos em relação ao processo opressivo que vem nos atingindo. Reivindicamos nesse manifesto a criação da Defensoria Pública dos Super-Ricos! Pela não implementação do imposto progressivo que é um tapa na cara de quem só quer curtir a vida em paz sem o Leão da Receita xeretando nossas contas nas Ilhas Cayman.

Por que existimos?

Pelo proteger nosso suado patrimônio — que o digam nossos contadores, advogados tributaristas e de sucessão — dessa violência chamada "tributação justa". Se o cara lá em cima deu a uns poucos o dom de ter tudo, quem é o governo pra vir com essa conversa de dividir o bolo? Pelo direito de ter cinco mansões e não pagar IPTU em nenhuma, simples assim.

Quem somos e a quem defendemos?

Nosso coração bate por nós mesmos e por nossos “iguais”:

• Donos de jatinho que estão penando pra encher o tanque (combustível tá caro, né?).

• Gente com 20 apartamentos alugados que não aguenta mais o carnê do IPTU chegando pelo correio. Propomos a criação de um IPTU Social Aglutinativo)

• Famílias com holdings que só queriam um CNPJ pra cada herdeiro, mas agora sofrem com auditoria.

• Investidores offshore que, coitados, por uma questão puramente estética, só guardam o dinheirinho onde o fuso horário é mais chique.

Nossos valores (não negociáveis)

• Foco na manutenção das condições historicamente construídas: Quem tem mais, paga menos. Quem tem menos, que se vire pra bancar o resto. (se seu bisavô não invadiu e documentou terras públicas, não temos culpa disso)

• Privilégio é herança: Se nunca pagamos imposto antes, por que raios começar agora? Tradição é tradição.

• Sigilo é chique: Exibir extrato bancário é coisa de quem parcela TV em 24 vezes nas Casas Bahia.

O papel da DPSR?

• Habeas corpus pra blindar sua conta contra fiscais metidos.

• Liminar pra garantir que seu helicóptero decole mesmo na crise (prioridade é prioridade).

• Processos por danos morais contra qualquer um que fale em "taxar fortunas" perto de você.

• Terapia de grupo para os herdeiros que entram em pânico só de ouvir "progressividade".

Nosso grito de guerra

Se até a Ferrari tá pagando imposto, que Brasil é esse?

Assinam, com o coração partido e o bolso ameaçado:

A Bancada dos Cofres Cheios

Frente Pelo Direito de Lucrar em Paz

Movimento dos Atormentados pelo Leão


terça-feira, 18 de março de 2025

"A Farmácia da Vida"
Já repararam como o Brasil virou um país de farmácias? Eu não estou falando das pequenas lojas de esquina com aquelas vitrines repletas de cremes anti-idade e fraldas geriátricas, não. Estou falando das farmácias invisíveis, aquelas que ficam dentro da nossa cabeça, onde qualquer sintoma – de uma dor de cabeça até uma crise existencial – se resolve com um bom comprimido. Parece que a solução para todos os males, agora, é engolir uma pílula. Outro dia, me peguei em uma situação meio bizarra. Estava na fila do supermercado, olhando o cartão de pontos do programa "Fidelidade da Vida", quando uma senhora na minha frente começou a tossir de forma dramática. Não era uma tosse qualquer, era uma tosse de novela, que fazia o entorno se assustar. Ela pegou um frasco de xarope de tosse, sacudiu, olhou para o produto com cara de quem já havia passado dos 20 minutos de "aguardar 5 minutos entre uma dose e outra", e... tomou logo duas colheradas. O que me chamou a atenção não foi o número de doses – pois, quem sou eu para julgar a maneira como os outros lidam com sua saúde? – mas o fato de que ela estava tossindo apenas porque o ar-condicionado do supermercado estava muito forte. E mesmo assim, lá estava ela, com a cura pronta em sua mão, como se tivesse dado um "click" no botão da imunidade. Já é meio consenso que a solução para qualquer problema é uma medicação. Você tem uma leve dor no joelho? Aqui, toma um anti-inflamatório que já vai passar. Está triste porque o gato olhou feio para você? Não se preocupe, o antidepressivo vai dar aquele empurrãozinho. Acordou meio cansado? Um bom multivitamínico resolve, com certeza. Na última vez em que estive no médico, perguntei se ele recomendava algum tipo de relaxamento, exercício ou meditação para aliviar o estresse. Ele me olhou como quem escuta uma piada sem graça e me prescreveu um ansiolítico. "Esse aqui vai te dar a paz interior", disse, como se estivesse me oferecendo uma viagem direta para Bali. E eu, claro, aceitei. Não porque acreditasse que o medicamento fosse fazer a diferença, mas porque ele me deu uma solução imediata. E quem não ama uma solução imediata? As farmácias hoje têm mais variedade do que o guarda-roupa de atrizes de Hollywood. Há uns 15 tipos de analgésicos, uns 25 tipos de antigripais e, claro, uma infinidade de cremes para os pés. O número de opções é tão grande que você começa a achar que cada medicamento tem um poder místico. "Este aqui é o que vai me dar energia para enfrentar o mundo", você pensa, enquanto pega uma caixa de "Turbo+ Energy Pills". E o mais engraçado é que, no fundo, ninguém nem sabe mais o que está tomando direito. A etiqueta do remédio já não é mais "em caso de dor, tome uma cápsula", mas sim "em caso de sintomas indeterminados, tome duas cápsulas de qualquer coisa que você achar". E, claro, com aquele sorriso da farmácia que, em troca de um pacote de cápsulas, nos promete a cura para todos os nossos males existenciais. Estamos vivendo a época da farmácia pop. Não se engane, a farmácia não é mais um lugar apenas para quando você está doente. Ela se tornou uma espécie de "spa instantâneo". Quer emagrecer? Tem um remédio para isso. Quer ter mais disposição para enfrentar o trabalho? Tem um remédio para isso também. Está com insônia, mas não quer perder tempo com meditação ou um chá de camomila? Bem-vindo ao "xarope da serenidade". Você que me entende, sabe do que estou falando. E o mais curioso é que, quando você vai procurar a bula do remédio, encontra instruções que parecem mais um manual de sobrevivência. "Se você sentir alguma dor nas extremidades, náusea, desconforto estomacal, perda de visão e memória de curto prazo, não se preocupe, é efeito colateral temporário. Se persistir, tome outro remédio". O ciclo parece infinito. Claro, todos nós sabemos que medicamentos são necessários em muitos casos. A questão não é essa. O problema é que, com o tempo, começamos a acreditar que eles são a resposta para tudo, como se fosse uma fórmula mágica que resolve desde uma dor de cabeça até a nossa incapacidade de viver sem Wi-Fi. Mas a verdade é que, por mais que a indústria farmacêutica nos ofereça soluções para tudo, tem algo de essencial que nenhum comprimido vai conseguir resolver: a nossa capacidade de parar, respirar e pensar se realmente estamos precisando daquela solução ou se, talvez, o que precisamos é de um pouco de calma. Talvez, no fundo, a solução para todos os nossos problemas seja a mais simples de todas: uma boa caminhada no parque, uma pausa para respirar e, quem sabe, uma conversa com alguém sem que a frase "vou só pegar um remedinho para isso" seja a resposta. Mas, claro, só depois de tomar aquele analgésico para dor de cabeça, porque, convenhamos, hoje em dia, ninguém tem tempo para nada...

domingo, 15 de novembro de 2015

Mariana e Paris - não Mariana x Paris

1. Uma barragem sob a responsabilidade da mineradora Samarco  rompe-se no município de Mariana – /MG. O mar de lama que se seguiu tirou vidas, devastou casas, levou bens imóveis e móveis. Matou o Rio Doce e provocou uma devastação ambiental cujas consequências todos sofreremos por anos... dizem os especialistas que a conta chegará aos cem anos.
2. Um grupo de terroristas provoca uma série de atentados em Paris, matando mais de uma centena de inocentes, ferindo outras centenas – nesse momento em que escrevo vejo a notícia de que alguns feridos lamentavelmente vieram a falecer.
Dois acontecimentos lamentáveis, cruéis, desumanos... de um lado, uma mineradora cuja estupidez da administração deu-se ao luxo de ignorar laudos apontando para um desastre iminente. De outro, pessoas que tinham o objetivo de provocar a dor e o medo, ignorando o fato de que para isso teriam que tirar vidas de inocentes. A desumanidade é o que aproxima esses dois momentos de dor.
Observando esses fatos pelas redes sociais, percebi que pessoas que se manifestavam de forma solidária aos franceses eram de forma direta ou indireta criticadas por outros que gritavam pelo reconhecimento do desastre de Mariana como algo maior... sempre que via alguém utilizando um aplicativo do google que coloca as cores da bandeira francesa na foto do perfil rapidamente aparecia uma imagem de alguém citando a lama de Mariana como se, algum brasileiro ao ficar triste pelo acontecido em Paris colocasse no esquecimento imediato o desastre nacional, como um tipo de manifestação do ufanismo nacional da década de setenta, só que as avessas, dizendo aos franceses: meu desastre é maior que o seu atentado! Está na hora de perdermos essa postura de torcedor de futebol que manifestamos em muitas situações colocando toda e qualquer situação numa condição de disputa. Não é hora para isso.
Não nos iludamos: tanto o desastre ambiental quanto o atentado terrorista foram igualmente brutais e afetam não só brasileiros e franceses, mas o mundo inteiro. Por um lado, as ações dos terroristas provocam o medo e a ira praticamente do mundo inteiro, tornando as populações mais suscetíveis a guerra, mas sensíveis ao chamado da morte. Por outro, o desastre ambiental cuja consequência mais devastadora além das mortes humanas que provocou é a morte do Rio Doce afeta, em alguma medida o equilíbrio ecológico do planeta e a oferta de água potável. O que destruímos aqui, desequilibra lá.
Em ambas situações há seres humanos como nós e a contagem de mortos não é um placar!  

Oremos por todos... oremos por Mariana, por Paris e, por que não? Oremos por nós mesmos... 

quarta-feira, 16 de julho de 2014


A sabedoria do campo ou tomando o chá de Sierra Maestra.
(Alô Lenin) 



Essa gente que mora na roça não gosta de remédios receitados pelos médicos – o negócio lá é tomar chá... gripou? Chá de limão com mel... tossiu? Chá de agrião... dor nos rins? Chá de quebra pedra... e por aí vai... a cada sintoma, a cada dor um chá aparecia do nada.
Tenho um amigo que mora numa chácara, não muito longe da cidade... chácara de porteira, área grande e fogão de lenha. Esse meu amigo, comunista de carteirinha, revolucionário de plantão atento a cada gesto de insatisfação social também é adepto ao tratamento com chás. 

Contam que certa vez, um conhecido dele começou a sofrer de populismo agudo... lá vai meu camarada, boina na cabeça, ervas na mão, começar o tratamento: chá de companheirismo, compressa de honestidade na testa e pronto! Lá se foi o mal estar... 
Mas duro mesmo foi quando uma mãe chorosa leva a ele seu filho, sofrendo de capitalismo agudo. Ela já havia tentado diversos tratamentos com os médicos da capital e, em cada um, após um gasto danado de dinheiro, quando haviam lucrado médicos, hospitais, laboratórios e indústrias farmacêuticas o resultado era o mesmo: não adianta continuar... vocês não dão mais lucro.
Desesperada, a mãe ouve falar desse meu amigo e leva seu filho a ele (a pé, pois o banco já havia tomado seu carro) e pede que ajude a curar o filho. Meu camarada chega perto do rapaz e pergunta: o que você está sentindo? O rapaz começa a gritar: Carro Zero, roupas de marca, sapatos caros! Quero ser elite! Quero ser igual a todos que tem!
Preocupado, meu amigo coça a cabeça por cima da boina decorada com uma estrela vermelha (até porque, comunista que é comunista, não tira a boina nem para se coçar), pensa por uns instantes, vai à sua bibli... opsss... horta e de lá traz um chumaço de ervas. Daí começa a testar chá por chá, metodicamente, para encontrar a cura para o mal do rapaz.
Começou com um chá quente da erva althusseriana, que ajuda a fortalecer a consciência dos aparelhos ideo... opsss... digestivos do estado do sofredor. O rapaz melhorou um pouco e deixou de pedir escolas particulares, cursinhos justificando que a escola pública era coisa de pobre. Mas ainda gritava por bens de consumo mil e fazia odes de elogio aos bancos e banqueiros. Pensativo, nosso camarada seleciona outra erva para o chá... dessa vez um chá forte feito de folhas e raiz: chá de consciência de classe e desceu fervendo pela goela abaixo do rapaz que esperneou mas tomou gole por gole, no início fazendo cara de quem tomou e perdeu algo, mas no final compreendendo que o chá era bom para tudo e todos.
Curado o rapaz, a mãe feliz se dispõe a levar o filho para casa quando nosso chacareiro chega com uma vara de pau Marx e entrega para ela. Para que isso? Perguntou a senhora... essa é a vara de massagem... pendura na porta do quarto dele para o caso de recaída!

sábado, 23 de março de 2013

O USO DA PEDOFILIA COMO FERRAMENTA DE PRESSÃO: O CASO DO DEP. JEAN WYLLYS



Fiquei bastante incomodado com algumas postagens no Facebook dando conta de que o Dep. Federal do PSOL, Jean Wyllys teria afirmado algo relativo a um papel sexual positivo do pedófilo em nossa sociedade. Por conta de meus trabalhos no mestrado e doutorado investigando questões ligadas ao ativismo pedófilo, em especial sua forma de circulação, diversos colegas me passaram o link dessa postagem na qual basicamente há uma fala atribuída por “alguém” a Jean Wyllys, na qual o deputado teria defendido, numa entrevista a rádio CBN, um papel importante do pedófilo no desenvolvimento da criança na direção de uma “sexualidade sadia e livre de preconceitos”. Daí para a sociedade se revoltar e imediatamente a foto do deputado com a tarja “verdadeiro monstro” passar a circular rapidamente nas redes sociais foi um pulo. Nunca me espanto com a velocidade com que isso ocorre, uma vez que a vinculação de um sujeito ao termo “pedófilo” é atualmente, penso eu, uma das maneiras mais rápidas de deslocar esse mesmo sujeito de um universo de credibilidade para o de desconfiança extrema. Não me assustaria em saber que mães mais apavoradas poderiam, de uma hora para outra, começar a recolher suas crianças, trancar portas e janelas à simples menção do nome do nobre deputado. É a materialização do lobo mau da história do chapeuzinho vermelho.
Não conheço pessoalmente o Deputado Jean Wyllys e acompanho de longe seu trabalho. Não se trata aqui de fazer uma defesa ou ataque pessoal a ninguém, mas apenas de trazer algumas constatações (umas óbvias, outras nem tanto). Então vamos a elas:
a) Ao ler a postagem, de imediato estranhei a forma como ela foi construída. O deputado Jean Wyllys tem um trabalho forte ligado ao combate à homofobia e ao preconceito de forma geral e de imediato percebi algumas construções cuja historicidade não pertence ao espaço discursivo a partir do qual ele fala. Saí das redes sociais e fui buscar a entrevista na CBN para ouvi-la na íntegra. Daí um “não-espanto”: a entrevista não existe, é negada pela própria CBN em sua conta oficial no Facebook. (aqui). Essa negação é reproduzida na conta do próprio deputado (https://www.facebook.com/jean.wyllys).
O meu “não-espanto” não surge de algum tipo de admiração ou apoio ao Deputado mas de uma constatação histórica – o ativismo homossexual há muito que se distancia do ativismo pedófilo. A expulsão dos grupos defensores da pedofilia dos quadros da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais), fruto de uma pressão não só da ONU, mas também interna de diversos grupos homossexuais que a constituem é um marco nesse processo de distanciamento. Outro exemplo é a condenação que as organizações norte-americanas GLAAD[1] e a NGLTF[2]  fazem da Associação pedófila NAMBLA[3]:
A GLAAD "rejeita os objetivos da North American Man Boy Love Association (NAMBLA), os quais incluem a defesa de relacionamentos sexuais entre homens adultos e meninos, bem como a supressão das proteções legais da infância. Esses objetivos constituem uma forma de abuso infantil e são repugnantes para a GLAAD"
 "A NGLTF condena todos os abusos contra menores, de natureza sexual ou não, perpetrados por adultos. Consequentemente, a NGLTF condena os principais dirigentes da NAMBLA e de todas as organizações do mesmo gênero"
A vinculação do trabalho do Deputado Jean Wyllys à defesa da pedofilia, nessa leitura preliminar que faço, não visa tão somente desacreditá-lo enquanto pessoa ou deputado, mas também desacreditar todo um construto em defesa do direito a escolha que cada sujeito tem em qualquer aspecto da vida (sexual, econômico, religioso, etc.).
Voltando a postagem, observo com mais cuidado aquela que foi compartilhada em minha conta: abaixo da imagem há um comentário atribuído a um pastor chamado Otton de Paula. Descubro além de um pastor, um político – vereador e assessor  político. Nada contra evangélicos, pastores ou contra o direito de cada um ter sua religião. Sou contra a divulgação pura e simples de inverdades ou de se aproveitar  de situações para promoção pessoal. O que há de melhor para um político evangélico da direita do que se promover vinculando políticos da esquerda à pedofilia? Como não ser reconhecido no meio evangélico quando se faz uma ponte direta entre a homossexualidade, a pedofilia e o inferno??? Imagino o grande número daqueles que sonham com a volta do estado teocrático! Essa autoria, se verdadeira, é também um não espanto. Cabe apenas um questionamento: Colocar a pedofilia como oriunda de grupos homossexuais não é ignorar a quantidade de pedófilos heterossexuais existentes? Não é lançar uma espessa fumaça para encobrir os milhares de casos de estupros cometidos contra crianças por heterossexuais??? A quem de fato se está protegendo??? O abusado ou uma categoria de abusador??? O sujeito pedófilo não está ligado a homossexualidade. Há pedófilos homossexuais da mesma forma que há pedófilos heterossexuais. Estabelecer esse tipo de ligação é uma atitude além de preconceituosa, criminosa uma vez que desconsidera a existência do pedófilo heterossexual.
Na verdade, meu verdadeiro espanto foi a forma como foi colocada em circulação um dos grandes postulados do ativismo pedófilo. Em minha tese de doutorado “Sentidos inter-ditos: entre as formas de dizer e as formas de negar” (UNICAMP, 2012) coloco a questão da circulação desses discursos como um dos problemas cruciais do ativismo pedófilo. A origem do ativismo pedófilo remonta ao pós II guerra mundial e, apesar de ter atravessado períodos em que a circulação de seus discursos estaria favorecida por um determinado contexto (a revolução sexual da década de 70 é um exemplo), nunca conseguiu colocar em voga seus postulados, mesmo quando tentou se vincular à historicidade do ativismo homossexual. Os interditos existentes a essa circulação são fortes de tal forma que não só impedem a circulação dos discursos como também a circulação dos próprios sujeitos que enunciam esses discursos.
Todavia, a postagem levou diretamente ao conhecimento popular (de forma muito mais eficiente que qualquer campanha ativista) um dos principais postulados do ativismo pedófilo: de que o pedófilo teria uma contribuição a fazer na educação infantil. E, ao lançar o sentido etimológico da palavra, traz a baila também uma informação que circula de forma equivocada: a de que na Grécia Antiga a pedofilia era aceita[4] como parte da educação do jovem. Triste engano...
Vale ressaltar aqui que uma das principais discussões do ativismo pedófilo desde a década de 80 sempre foi sobre a forma de como fazer seus postulados penetrarem de forma direta na sociedade. Pelo visto estão fazendo a tarefa de casa. Infelizmente tentaram utilizar como bode expiatório o deputado Jean Wyllys.
Sobre a pergunta de uma amiga sobre se, em breve a circulação dos discursos do ativismo pedófilo se tornará um acontecimento discursivo, respondo que acredito que não. Basta observar que a cada tentativa, a reação da sociedade como um todo é muito forte no sentido de bloquear a circulação desses discursos. O caso do Dep. Jean Wyllys é emblemático, haja vista que ele teve que pedir um aumento de sua segurança pessoal (veja aqui). O pedófilo, enquanto sujeito de um discurso ativista, ainda não encontrou seu outro. O que temos, no máximo, são os “ecos” de um discurso que insiste em entrar na ordem do socialmente aceitável por inúmeras portas que lhes são fechadas pela sociedade a cada tentativa. A cada negativa, uma nova tentativa, nem que seja pela falsa acusação.
A sociedade está atenta a cada tentativa e reage prontamente. Não é possível aceitar que o desejo dos pedófilos determine a desconstrução/destruição da infância. Nem é possível aceitar que a indignação da sociedade em relação à pedofilia seja utilizada de forma tão torpe e mesquinha como no caso da falsa denúncia contra o Deputado Jean Wyllys. Temos que nos cuidar – não podemos deixar que nos anestesiem em relação a isso. Não é possível permitir que a circulação dessas ideias se torne algo comum. A cada falsa denúncia, a cada falsa vinculação acaba-se por confundir a noção do que venha a ser o pedófilo, confusão essa que coloca nossas crianças em risco permanente.



[1] GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation – organização norte Americana criada em 1985 para combater a circulação das notícias que vinculavam a AIDS a uma suposta “peste gay”.
[2] National Gay and Lesbian Task Force
[3] North American Man Boy Lovers Association
[4] Para essa questão sugiro a leitura da obra de VRISSIMTZ, N. Amor, sexo e casamento na Grécia Antiga. Trad. Luiz A. M. Cabral. São Paulo, SP, Odysseus Editora: 2002.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

NADA PARA 2014


Vejo poucas coisas mais deprimentes do que decisões de fim de ano – na minha opinião (e não pretendo que seja a de mais ninguém) são a marca da nossa incompetência para gerenciar esse pequeno pedaço de vida que nos coube. Dependemos desse esparrame de coragem coletiva do último dia do ano para colocar em movimento as decisões que, com certeza, deveríamos ter tomado antes: parar de fumar, beber, comer, poupar, deixar alguém, conquistar outro alguém, trocar de carro, casa, moto, ser uma pessoa melhor, ser pior... enfim, o dia 31 de dezembro me lembra muito o dia marcado para o caminhão da mudança estacionar na frente de casa...
O complicado é saber que quase toda energia utilizada na elaboração dessas decisões se dissipa antes do décimo dia do mês de janeiro (quem sabe alguém um dia inventa algo para aproveitar a energia dessas decisões para acender ao menos uma lâmpada) – aí começamos o período de espera para aproveitarmos uma nova catarse “decisória” que nos alivia da incompetência de não cumprirmos aquilo a que nos propomos o ano anterior e recarrega para um novo período de espera.
Esse ano farei diferente: desejarei e buscarei. Não esperarei um segundo sequer para aquilo que tenho, quero e posso que fazer. Quero chegar ao fim do ano sem pedidos, desejos.... pretendo em 31/13 ter cumprido aquilo a que me proporia apenas para 2014. Nada de postergar, adiar, esperar... o momento a ser vivido é o hoje e ele não pode e nem deve ser adiado para o ano que vem.
Deixei para marcar essas questões hoje para que não se parecessem com decisões do primeiro dia do ano... até porque já estamos no dia 03 de janeiro... Nossa! Como o tempo passa!