sábado, 23 de março de 2013

O USO DA PEDOFILIA COMO FERRAMENTA DE PRESSÃO: O CASO DO DEP. JEAN WYLLYS



Fiquei bastante incomodado com algumas postagens no Facebook dando conta de que o Dep. Federal do PSOL, Jean Wyllys teria afirmado algo relativo a um papel sexual positivo do pedófilo em nossa sociedade. Por conta de meus trabalhos no mestrado e doutorado investigando questões ligadas ao ativismo pedófilo, em especial sua forma de circulação, diversos colegas me passaram o link dessa postagem na qual basicamente há uma fala atribuída por “alguém” a Jean Wyllys, na qual o deputado teria defendido, numa entrevista a rádio CBN, um papel importante do pedófilo no desenvolvimento da criança na direção de uma “sexualidade sadia e livre de preconceitos”. Daí para a sociedade se revoltar e imediatamente a foto do deputado com a tarja “verdadeiro monstro” passar a circular rapidamente nas redes sociais foi um pulo. Nunca me espanto com a velocidade com que isso ocorre, uma vez que a vinculação de um sujeito ao termo “pedófilo” é atualmente, penso eu, uma das maneiras mais rápidas de deslocar esse mesmo sujeito de um universo de credibilidade para o de desconfiança extrema. Não me assustaria em saber que mães mais apavoradas poderiam, de uma hora para outra, começar a recolher suas crianças, trancar portas e janelas à simples menção do nome do nobre deputado. É a materialização do lobo mau da história do chapeuzinho vermelho.
Não conheço pessoalmente o Deputado Jean Wyllys e acompanho de longe seu trabalho. Não se trata aqui de fazer uma defesa ou ataque pessoal a ninguém, mas apenas de trazer algumas constatações (umas óbvias, outras nem tanto). Então vamos a elas:
a) Ao ler a postagem, de imediato estranhei a forma como ela foi construída. O deputado Jean Wyllys tem um trabalho forte ligado ao combate à homofobia e ao preconceito de forma geral e de imediato percebi algumas construções cuja historicidade não pertence ao espaço discursivo a partir do qual ele fala. Saí das redes sociais e fui buscar a entrevista na CBN para ouvi-la na íntegra. Daí um “não-espanto”: a entrevista não existe, é negada pela própria CBN em sua conta oficial no Facebook. (aqui). Essa negação é reproduzida na conta do próprio deputado (https://www.facebook.com/jean.wyllys).
O meu “não-espanto” não surge de algum tipo de admiração ou apoio ao Deputado mas de uma constatação histórica – o ativismo homossexual há muito que se distancia do ativismo pedófilo. A expulsão dos grupos defensores da pedofilia dos quadros da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais), fruto de uma pressão não só da ONU, mas também interna de diversos grupos homossexuais que a constituem é um marco nesse processo de distanciamento. Outro exemplo é a condenação que as organizações norte-americanas GLAAD[1] e a NGLTF[2]  fazem da Associação pedófila NAMBLA[3]:
A GLAAD "rejeita os objetivos da North American Man Boy Love Association (NAMBLA), os quais incluem a defesa de relacionamentos sexuais entre homens adultos e meninos, bem como a supressão das proteções legais da infância. Esses objetivos constituem uma forma de abuso infantil e são repugnantes para a GLAAD"
 "A NGLTF condena todos os abusos contra menores, de natureza sexual ou não, perpetrados por adultos. Consequentemente, a NGLTF condena os principais dirigentes da NAMBLA e de todas as organizações do mesmo gênero"
A vinculação do trabalho do Deputado Jean Wyllys à defesa da pedofilia, nessa leitura preliminar que faço, não visa tão somente desacreditá-lo enquanto pessoa ou deputado, mas também desacreditar todo um construto em defesa do direito a escolha que cada sujeito tem em qualquer aspecto da vida (sexual, econômico, religioso, etc.).
Voltando a postagem, observo com mais cuidado aquela que foi compartilhada em minha conta: abaixo da imagem há um comentário atribuído a um pastor chamado Otton de Paula. Descubro além de um pastor, um político – vereador e assessor  político. Nada contra evangélicos, pastores ou contra o direito de cada um ter sua religião. Sou contra a divulgação pura e simples de inverdades ou de se aproveitar  de situações para promoção pessoal. O que há de melhor para um político evangélico da direita do que se promover vinculando políticos da esquerda à pedofilia? Como não ser reconhecido no meio evangélico quando se faz uma ponte direta entre a homossexualidade, a pedofilia e o inferno??? Imagino o grande número daqueles que sonham com a volta do estado teocrático! Essa autoria, se verdadeira, é também um não espanto. Cabe apenas um questionamento: Colocar a pedofilia como oriunda de grupos homossexuais não é ignorar a quantidade de pedófilos heterossexuais existentes? Não é lançar uma espessa fumaça para encobrir os milhares de casos de estupros cometidos contra crianças por heterossexuais??? A quem de fato se está protegendo??? O abusado ou uma categoria de abusador??? O sujeito pedófilo não está ligado a homossexualidade. Há pedófilos homossexuais da mesma forma que há pedófilos heterossexuais. Estabelecer esse tipo de ligação é uma atitude além de preconceituosa, criminosa uma vez que desconsidera a existência do pedófilo heterossexual.
Na verdade, meu verdadeiro espanto foi a forma como foi colocada em circulação um dos grandes postulados do ativismo pedófilo. Em minha tese de doutorado “Sentidos inter-ditos: entre as formas de dizer e as formas de negar” (UNICAMP, 2012) coloco a questão da circulação desses discursos como um dos problemas cruciais do ativismo pedófilo. A origem do ativismo pedófilo remonta ao pós II guerra mundial e, apesar de ter atravessado períodos em que a circulação de seus discursos estaria favorecida por um determinado contexto (a revolução sexual da década de 70 é um exemplo), nunca conseguiu colocar em voga seus postulados, mesmo quando tentou se vincular à historicidade do ativismo homossexual. Os interditos existentes a essa circulação são fortes de tal forma que não só impedem a circulação dos discursos como também a circulação dos próprios sujeitos que enunciam esses discursos.
Todavia, a postagem levou diretamente ao conhecimento popular (de forma muito mais eficiente que qualquer campanha ativista) um dos principais postulados do ativismo pedófilo: de que o pedófilo teria uma contribuição a fazer na educação infantil. E, ao lançar o sentido etimológico da palavra, traz a baila também uma informação que circula de forma equivocada: a de que na Grécia Antiga a pedofilia era aceita[4] como parte da educação do jovem. Triste engano...
Vale ressaltar aqui que uma das principais discussões do ativismo pedófilo desde a década de 80 sempre foi sobre a forma de como fazer seus postulados penetrarem de forma direta na sociedade. Pelo visto estão fazendo a tarefa de casa. Infelizmente tentaram utilizar como bode expiatório o deputado Jean Wyllys.
Sobre a pergunta de uma amiga sobre se, em breve a circulação dos discursos do ativismo pedófilo se tornará um acontecimento discursivo, respondo que acredito que não. Basta observar que a cada tentativa, a reação da sociedade como um todo é muito forte no sentido de bloquear a circulação desses discursos. O caso do Dep. Jean Wyllys é emblemático, haja vista que ele teve que pedir um aumento de sua segurança pessoal (veja aqui). O pedófilo, enquanto sujeito de um discurso ativista, ainda não encontrou seu outro. O que temos, no máximo, são os “ecos” de um discurso que insiste em entrar na ordem do socialmente aceitável por inúmeras portas que lhes são fechadas pela sociedade a cada tentativa. A cada negativa, uma nova tentativa, nem que seja pela falsa acusação.
A sociedade está atenta a cada tentativa e reage prontamente. Não é possível aceitar que o desejo dos pedófilos determine a desconstrução/destruição da infância. Nem é possível aceitar que a indignação da sociedade em relação à pedofilia seja utilizada de forma tão torpe e mesquinha como no caso da falsa denúncia contra o Deputado Jean Wyllys. Temos que nos cuidar – não podemos deixar que nos anestesiem em relação a isso. Não é possível permitir que a circulação dessas ideias se torne algo comum. A cada falsa denúncia, a cada falsa vinculação acaba-se por confundir a noção do que venha a ser o pedófilo, confusão essa que coloca nossas crianças em risco permanente.



[1] GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation – organização norte Americana criada em 1985 para combater a circulação das notícias que vinculavam a AIDS a uma suposta “peste gay”.
[2] National Gay and Lesbian Task Force
[3] North American Man Boy Lovers Association
[4] Para essa questão sugiro a leitura da obra de VRISSIMTZ, N. Amor, sexo e casamento na Grécia Antiga. Trad. Luiz A. M. Cabral. São Paulo, SP, Odysseus Editora: 2002.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto, muito esclarecedor. Se todos buscassem se informar antes de compartilhar qualquer coisa que encontram na Internet, muita situações desagradáveis como essa poderiam ser evitadas.

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  2. Paulinho, Parabéns mesmo!!!.. realmente muito enriquecedor. Concordo integralmente com seus argumentos, conjecturas e conclusões, a mim, leigo, elas são bastante plausíveis. A pedofilia deve ser combatida quanto a sua incidência e também ideologicamente, seja pedofilia homossexual ou heterossexual.
    Abs,

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