Fiquei bastante incomodado com algumas
postagens no Facebook dando conta de que o Dep. Federal do PSOL, Jean Wyllys
teria afirmado algo relativo a um papel sexual positivo do pedófilo em nossa
sociedade. Por conta de meus trabalhos no mestrado e doutorado investigando
questões ligadas ao ativismo pedófilo, em especial sua forma de circulação,
diversos colegas me passaram o link dessa postagem na qual basicamente há uma
fala atribuída por “alguém” a Jean Wyllys, na qual o deputado teria defendido,
numa entrevista a rádio CBN, um papel importante do pedófilo no desenvolvimento da criança na
direção de uma “sexualidade sadia e livre de preconceitos”. Daí para a
sociedade se revoltar e imediatamente a foto do deputado com a tarja “verdadeiro
monstro” passar a circular rapidamente nas redes sociais foi um pulo. Nunca me
espanto com a velocidade com que isso ocorre, uma vez que a vinculação de um
sujeito ao termo “pedófilo” é atualmente, penso eu, uma das maneiras mais
rápidas de deslocar esse mesmo sujeito de um universo de credibilidade para o
de desconfiança extrema. Não me assustaria em saber que mães mais apavoradas poderiam,
de uma hora para outra, começar a recolher suas crianças, trancar portas e
janelas à simples menção do nome do nobre deputado. É a materialização do lobo
mau da história do chapeuzinho vermelho.
Não conheço pessoalmente o Deputado Jean
Wyllys e acompanho de longe seu trabalho. Não se trata aqui de fazer uma defesa
ou ataque pessoal a ninguém, mas apenas de trazer algumas constatações
(umas óbvias, outras nem tanto). Então vamos a elas:
a) Ao ler a postagem, de imediato estranhei a
forma como ela foi construída. O deputado Jean Wyllys tem um trabalho forte
ligado ao combate à homofobia e ao preconceito de forma geral e de imediato
percebi algumas construções cuja historicidade não pertence ao espaço
discursivo a partir do qual ele fala. Saí das redes sociais e fui buscar a
entrevista na CBN para ouvi-la na íntegra. Daí um “não-espanto”: a entrevista
não existe, é negada pela própria CBN em sua conta oficial no Facebook. (aqui).
Essa negação é reproduzida na conta do próprio deputado (https://www.facebook.com/jean.wyllys).
O meu “não-espanto” não surge de algum tipo
de admiração ou apoio ao Deputado mas de uma constatação histórica – o ativismo
homossexual há muito que se distancia do ativismo pedófilo. A expulsão dos
grupos defensores da pedofilia dos quadros da ILGA (Associação Internacional de
Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais), fruto de uma pressão não só
da ONU, mas também interna de diversos grupos homossexuais que a constituem é
um marco nesse processo de distanciamento. Outro exemplo é a condenação que as
organizações norte-americanas GLAAD[1] e a NGLTF[2] fazem da Associação pedófila NAMBLA[3]:
A GLAAD "rejeita os objetivos da North
American Man Boy Love Association (NAMBLA), os quais incluem a defesa de
relacionamentos sexuais entre homens adultos e meninos, bem como a supressão
das proteções legais da infância. Esses objetivos constituem uma forma de abuso
infantil e são repugnantes para a GLAAD"
"A NGLTF condena todos os abusos contra
menores, de natureza sexual ou não, perpetrados por adultos. Consequentemente,
a NGLTF condena os principais dirigentes da NAMBLA e de todas as organizações
do mesmo gênero"
A vinculação do trabalho do Deputado Jean
Wyllys à defesa da pedofilia, nessa leitura preliminar que faço, não visa tão
somente desacreditá-lo enquanto pessoa ou deputado, mas também desacreditar
todo um construto em defesa do direito a escolha que cada sujeito tem em
qualquer aspecto da vida (sexual, econômico, religioso, etc.).
Voltando a postagem, observo com mais cuidado
aquela que foi compartilhada em minha conta: abaixo da imagem há um comentário
atribuído a um pastor chamado Otton de Paula. Descubro além de um pastor, um
político – vereador e assessor político.
Nada contra evangélicos, pastores ou contra o direito de cada um ter sua
religião. Sou contra a divulgação pura e simples de inverdades ou de se
aproveitar de situações para promoção
pessoal. O que há de melhor para um político evangélico da direita do que se
promover vinculando políticos da esquerda à pedofilia? Como não ser reconhecido
no meio evangélico quando se faz uma ponte direta entre a homossexualidade, a
pedofilia e o inferno??? Imagino o grande número daqueles que sonham com a
volta do estado teocrático! Essa autoria, se verdadeira, é também um não
espanto. Cabe apenas um questionamento: Colocar a pedofilia como oriunda de
grupos homossexuais não é ignorar a quantidade de pedófilos heterossexuais
existentes? Não é lançar uma espessa fumaça para encobrir os milhares de casos
de estupros cometidos contra crianças por heterossexuais??? A quem de fato se
está protegendo??? O abusado ou uma categoria de abusador??? O sujeito pedófilo
não está ligado a homossexualidade. Há pedófilos homossexuais da mesma forma
que há pedófilos heterossexuais. Estabelecer esse tipo de ligação é uma atitude
além de preconceituosa, criminosa uma vez que desconsidera a existência do
pedófilo heterossexual.
Na verdade, meu verdadeiro espanto foi a
forma como foi colocada em circulação um dos grandes postulados do ativismo
pedófilo. Em minha tese de doutorado “Sentidos inter-ditos: entre as formas de
dizer e as formas de negar” (UNICAMP, 2012) coloco a questão da circulação
desses discursos como um dos problemas cruciais do ativismo pedófilo. A origem
do ativismo pedófilo remonta ao pós II guerra mundial e, apesar de ter
atravessado períodos em que a circulação de seus discursos estaria favorecida
por um determinado contexto (a revolução sexual da década de 70 é um exemplo), nunca
conseguiu colocar em voga seus postulados, mesmo quando tentou se vincular à
historicidade do ativismo homossexual. Os interditos existentes a essa
circulação são fortes de tal forma que não só impedem a circulação dos
discursos como também a circulação dos próprios sujeitos que enunciam esses
discursos.
Todavia, a postagem levou diretamente ao
conhecimento popular (de forma muito mais eficiente que qualquer campanha
ativista) um dos principais postulados do ativismo pedófilo: de que o pedófilo teria
uma contribuição a fazer na educação infantil. E, ao lançar o sentido
etimológico da palavra, traz a baila também uma informação que circula de forma
equivocada: a de que na Grécia Antiga a pedofilia era aceita[4] como parte da
educação do jovem. Triste engano...
Vale ressaltar aqui que uma das principais
discussões do ativismo pedófilo desde a década de 80 sempre foi sobre a forma
de como fazer seus postulados penetrarem de forma direta na sociedade. Pelo
visto estão fazendo a tarefa de casa. Infelizmente tentaram utilizar como bode expiatório
o deputado Jean Wyllys.
Sobre a pergunta de uma amiga sobre se, em
breve a circulação dos discursos do ativismo pedófilo se tornará um
acontecimento discursivo, respondo que acredito que não. Basta observar que a
cada tentativa, a reação da sociedade como um todo é muito forte no sentido de
bloquear a circulação desses discursos. O caso do Dep. Jean Wyllys é
emblemático, haja vista que ele teve que pedir um aumento de sua segurança
pessoal (veja aqui).
O pedófilo, enquanto sujeito de um discurso ativista, ainda não encontrou seu
outro. O que temos, no máximo, são os “ecos” de um discurso que insiste em
entrar na ordem do socialmente aceitável por inúmeras portas que lhes são
fechadas pela sociedade a cada tentativa. A cada negativa, uma nova tentativa,
nem que seja pela falsa acusação.
A sociedade está atenta a cada tentativa e
reage prontamente. Não é possível aceitar que o desejo dos pedófilos determine
a desconstrução/destruição da infância. Nem é possível aceitar que a indignação
da sociedade em relação à pedofilia seja utilizada de forma tão torpe e
mesquinha como no caso da falsa denúncia contra o Deputado Jean Wyllys. Temos
que nos cuidar – não podemos deixar que nos anestesiem em relação a isso. Não é
possível permitir que a circulação dessas ideias se torne algo comum. A cada
falsa denúncia, a cada falsa vinculação acaba-se por confundir a noção do que
venha a ser o pedófilo, confusão essa que coloca nossas crianças em risco
permanente.
[1]
GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation –
organização norte Americana criada em 1985 para combater a circulação das
notícias que vinculavam a AIDS a uma suposta “peste gay”.
[2] National
Gay and Lesbian Task Force
[4]
Para essa questão sugiro a leitura da obra de VRISSIMTZ, N. Amor, sexo e
casamento na Grécia Antiga. Trad. Luiz A. M. Cabral. São Paulo, SP,
Odysseus Editora: 2002.
Parabéns pelo texto, muito esclarecedor. Se todos buscassem se informar antes de compartilhar qualquer coisa que encontram na Internet, muita situações desagradáveis como essa poderiam ser evitadas.
ResponderExcluirPaulinho, Parabéns mesmo!!!.. realmente muito enriquecedor. Concordo integralmente com seus argumentos, conjecturas e conclusões, a mim, leigo, elas são bastante plausíveis. A pedofilia deve ser combatida quanto a sua incidência e também ideologicamente, seja pedofilia homossexual ou heterossexual.
ResponderExcluirAbs,