quarta-feira, 16 de julho de 2014


A sabedoria do campo ou tomando o chá de Sierra Maestra.
(Alô Lenin) 



Essa gente que mora na roça não gosta de remédios receitados pelos médicos – o negócio lá é tomar chá... gripou? Chá de limão com mel... tossiu? Chá de agrião... dor nos rins? Chá de quebra pedra... e por aí vai... a cada sintoma, a cada dor um chá aparecia do nada.
Tenho um amigo que mora numa chácara, não muito longe da cidade... chácara de porteira, área grande e fogão de lenha. Esse meu amigo, comunista de carteirinha, revolucionário de plantão atento a cada gesto de insatisfação social também é adepto ao tratamento com chás. 

Contam que certa vez, um conhecido dele começou a sofrer de populismo agudo... lá vai meu camarada, boina na cabeça, ervas na mão, começar o tratamento: chá de companheirismo, compressa de honestidade na testa e pronto! Lá se foi o mal estar... 
Mas duro mesmo foi quando uma mãe chorosa leva a ele seu filho, sofrendo de capitalismo agudo. Ela já havia tentado diversos tratamentos com os médicos da capital e, em cada um, após um gasto danado de dinheiro, quando haviam lucrado médicos, hospitais, laboratórios e indústrias farmacêuticas o resultado era o mesmo: não adianta continuar... vocês não dão mais lucro.
Desesperada, a mãe ouve falar desse meu amigo e leva seu filho a ele (a pé, pois o banco já havia tomado seu carro) e pede que ajude a curar o filho. Meu camarada chega perto do rapaz e pergunta: o que você está sentindo? O rapaz começa a gritar: Carro Zero, roupas de marca, sapatos caros! Quero ser elite! Quero ser igual a todos que tem!
Preocupado, meu amigo coça a cabeça por cima da boina decorada com uma estrela vermelha (até porque, comunista que é comunista, não tira a boina nem para se coçar), pensa por uns instantes, vai à sua bibli... opsss... horta e de lá traz um chumaço de ervas. Daí começa a testar chá por chá, metodicamente, para encontrar a cura para o mal do rapaz.
Começou com um chá quente da erva althusseriana, que ajuda a fortalecer a consciência dos aparelhos ideo... opsss... digestivos do estado do sofredor. O rapaz melhorou um pouco e deixou de pedir escolas particulares, cursinhos justificando que a escola pública era coisa de pobre. Mas ainda gritava por bens de consumo mil e fazia odes de elogio aos bancos e banqueiros. Pensativo, nosso camarada seleciona outra erva para o chá... dessa vez um chá forte feito de folhas e raiz: chá de consciência de classe e desceu fervendo pela goela abaixo do rapaz que esperneou mas tomou gole por gole, no início fazendo cara de quem tomou e perdeu algo, mas no final compreendendo que o chá era bom para tudo e todos.
Curado o rapaz, a mãe feliz se dispõe a levar o filho para casa quando nosso chacareiro chega com uma vara de pau Marx e entrega para ela. Para que isso? Perguntou a senhora... essa é a vara de massagem... pendura na porta do quarto dele para o caso de recaída!

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