(Uma pequena homenagem para aqueles que continuam fazendo o mundo girar, apesar de tudo)
Acorda antes do sol. Ainda é escuro, mas o café já
esfumaça na caneca rachada. Sobre a mesa, provas, papéis e um bilhete torto de
um aluno: “Você é o melor professor do mundo.”
Ele sorri — não pelo erro na grafia, mas porque ali mora uma verdade invisível.
Na mochila, além do peso dos livros (físico e intelectual),
leva lápis, folhas, fita adesiva e quatro canetas para o quadro branco — todas
compradas do próprio bolso. O professor é o raro profissional que investe na
esperança dos outros. O mundo corporativo daria um prêmio para descobrir esse
segredo, mas ainda não inventaram MBA em empatia. E ele segue, com o salário
apertado e o coração largo, para mais um dia de aula.
A chegada ao portão da escola é um misto de gritos
e abraços — um momento de felicidade genuína. Logo depois, a primeira parada na
sala dos professores é um mergulho na realidade crua. As notificações do grupo
de pais começam a pipocar: um quer saber se é verdade que a Terra não gira,
outro desconfia que Dom Casmurro é
“doutrinação” para acabar com a família e ainda pergunta onde mora a tal
Capitú, para passar longe do endereço. Ele respira fundo. Não há licenciatura
que ensine a paciência necessária para certos debates. E começa, assim, a
maratona diária que mistura contratos demais, disciplinas demais, turmas demais
— e uma fé teimosa que insiste em continuar.
Na primeira aula, tenta explicar a fotossíntese
enquanto três alunos disputam para ver quem tem o celular mais novo. Até que
uma voz se levanta, tímida: — Professor, se as plantas respiram, a gente devia
plantar mais pra salvar o planeta, né?
Ele sorri. Ainda há perguntas que nascem limpas. Ainda há curiosidade.
No intervalo, vai para a sala dos “profes”, como
dizem os alunos. Alí, nesse território neutro o café é fraco, o riso é forte e alguns
vazios são mesmo profundos. Um colega professor conta que foi chamado pela
direção porque “levantou a voz” após ser xingado por um aluno. Outro confessa
que pensa em largar tudo. Depois de um silêncio com identificação incerta —
entre adesão ou autocrítica — surgem algumas piadas que salvam o que o salário
não cobre.
À tarde, a reunião com os pais. Há os que chegam
com olhos marejados, agradecidos. Mas há outros que brandem o celular com
vídeos de internet como prova de verdade.
— Professor, meu filho disse que o senhor mandou ler Capitães de Areia. O fulano do YouTube falou que isso é
coisa de comunista.
Ele
respira. Sabe que a última vez que o tal fulano leu um livro foi provavelmente
antes da invenção da prensa. Pensa em responder com ironia, mas vê o aluno ao
lado do pai e lembra que seu trabalho é educar, e que isso nem sempre passa por
vencer discussões.
De noite, a volta pra casa. Cansado, mas
inquieto. Abre o notebook para preparar a aula seguinte. Quer que os alunos se
interessem, que percebam o mundo com mais nitidez. Sabe que boa parte do que
faz ninguém vê — as horas gastas, as correções minuciosas, as ideias testadas e
abandonadas. Mas faz mesmo assim.
Ele sabe que o Dia dos Professores é só mais um
dia, mesmo trazendo outro sentimento. O país não para, o salário não muda, o
respeito não se multiplica. Ainda assim, ele segue. Há algo de teimosamente
bonito em ensinar quando o resto parece desistir. Mais alimenta a indignação do
que joga para a resignação.
O professor desliga o computador, junta os papéis
e apaga a luz. A caneca ainda cheira a café frio. Antes de dormir, pensa nos
alunos — nos que perguntam, nos que zombam, nos que apenas olham pela janela.
Pensa se cada um, à sua forma, não está buscando uma fresta, uma saída.
Às dez da noite, o mundo lá fora ainda discute se a Terra é plana, se as vacinas funcionam ou se injetam chips espiões. Sentado à mesa da cozinha, ele prepara o amanhã. Tira o bilhete amassado da mochila e guarda numa pasta com outros tantos, de tantos anos, que o lembram do essencial: ainda há quem queira aprender.
Muito profundo. Duro como a realidade vivida pelos profes
ResponderExcluirQuanta sensibilidade!! Eu estava precisando desse texto... as palavras certas, de alguma forma, preenchem a gente!
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