quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Enquanto o mundo gira (ou não)

(Uma pequena homenagem para aqueles que continuam fazendo o mundo girar, apesar de tudo)


Acorda antes do sol. Ainda é escuro, mas o café já esfumaça na caneca rachada. Sobre a mesa, provas, papéis e um bilhete torto de um aluno: “Você é o melor professor do mundo.” Ele sorri — não pelo erro na grafia, mas porque ali mora uma verdade invisível.

Na mochila, além do peso dos livros (físico e intelectual), leva lápis, folhas, fita adesiva e quatro canetas para o quadro branco — todas compradas do próprio bolso. O professor é o raro profissional que investe na esperança dos outros. O mundo corporativo daria um prêmio para descobrir esse segredo, mas ainda não inventaram MBA em empatia. E ele segue, com o salário apertado e o coração largo, para mais um dia de aula.

A chegada ao portão da escola é um misto de gritos e abraços — um momento de felicidade genuína. Logo depois, a primeira parada na sala dos professores é um mergulho na realidade crua. As notificações do grupo de pais começam a pipocar: um quer saber se é verdade que a Terra não gira, outro desconfia que Dom Casmurro é “doutrinação” para acabar com a família e ainda pergunta onde mora a tal Capitú, para passar longe do endereço. Ele respira fundo. Não há licenciatura que ensine a paciência necessária para certos debates. E começa, assim, a maratona diária que mistura contratos demais, disciplinas demais, turmas demais — e uma fé teimosa que insiste em continuar.

Na primeira aula, tenta explicar a fotossíntese enquanto três alunos disputam para ver quem tem o celular mais novo. Até que uma voz se levanta, tímida: — Professor, se as plantas respiram, a gente devia plantar mais pra salvar o planeta, né?
Ele sorri. Ainda há perguntas que nascem limpas. Ainda há curiosidade.

No intervalo, vai para a sala dos “profes”, como dizem os alunos. Alí, nesse território neutro o café é fraco, o riso é forte e alguns vazios são mesmo profundos. Um colega professor conta que foi chamado pela direção porque “levantou a voz” após ser xingado por um aluno. Outro confessa que pensa em largar tudo. Depois de um silêncio com identificação incerta — entre adesão ou autocrítica — surgem algumas piadas que salvam o que o salário não cobre.

À tarde, a reunião com os pais. Há os que chegam com olhos marejados, agradecidos. Mas há outros que brandem o celular com vídeos de internet como prova de verdade.
— Professor, meu filho disse que o senhor mandou ler Capitães de Areia. O fulano do YouTube falou que isso é coisa de comunista.

Ele respira. Sabe que a última vez que o tal fulano leu um livro foi provavelmente antes da invenção da prensa. Pensa em responder com ironia, mas vê o aluno ao lado do pai e lembra que seu trabalho é educar, e que isso nem sempre passa por vencer discussões.

De noite, a volta pra casa. Cansado, mas inquieto. Abre o notebook para preparar a aula seguinte. Quer que os alunos se interessem, que percebam o mundo com mais nitidez. Sabe que boa parte do que faz ninguém vê — as horas gastas, as correções minuciosas, as ideias testadas e abandonadas. Mas faz mesmo assim.

Ele sabe que o Dia dos Professores é só mais um dia, mesmo trazendo outro sentimento. O país não para, o salário não muda, o respeito não se multiplica. Ainda assim, ele segue. Há algo de teimosamente bonito em ensinar quando o resto parece desistir. Mais alimenta a indignação do que joga para a resignação.

O professor desliga o computador, junta os papéis e apaga a luz. A caneca ainda cheira a café frio. Antes de dormir, pensa nos alunos — nos que perguntam, nos que zombam, nos que apenas olham pela janela. Pensa se cada um, à sua forma, não está buscando uma fresta, uma saída.

Às dez da noite, o mundo lá fora ainda discute se a Terra é plana, se as vacinas funcionam ou se injetam chips espiões. Sentado à mesa da cozinha, ele prepara o amanhã. Tira o bilhete amassado da mochila e guarda numa pasta com outros tantos, de tantos anos, que o lembram do essencial: ainda há quem queira aprender. 

2 comentários:

  1. Muito profundo. Duro como a realidade vivida pelos profes

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  2. Quanta sensibilidade!! Eu estava precisando desse texto... as palavras certas, de alguma forma, preenchem a gente!

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